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“Marés de dor”: as mediações do corpo no cotidiano de marisqueiras
Thais Mara Dias Gomes, Sérgio do Nascimento Silva Trad, Mônica Angelim Gomes de Lima

Última alteração: 2018-08-23

Resumo


Palavras-chave: marisqueira; corpo; trabalho
A crise do modelo científico da biomedicina contribuiu para uma maior inserção e valorização das ciências sociais no campo da saúde. Nos países em desenvolvimento como o Brasil, essa inserção tem favorecido à compreensão e enfrentamento das situações de desigualdade social, assim como, na incorporação e análise de dimensões subjetivas e simbólicas que permeiam a relação saúde/doença/cuidado. Interessa aqui destacar contribuições em torno da categoria corpo, mais especificamente, a interface corpo-trabalho. Corpo este entendido a partir da perspectiva sócio antropológica, que compreende a corporeidade humana como fenômeno social e cultural, motivo simbólico, objeto de representações e imaginário (LE BRETON, 2007). O corpo aqui se apresenta como “vetor semântico” na relação com o mundo do trabalho. As mulheres desse estudo são pescadoras artesanais de mariscos, uma atividade eminentemente feminina que transita quase na invisibilidade. Exercem uma atividade que envolve tradições, tecidas geração após geração, desvendando os caminhos da arte de ser marisqueira. Detentoras de um vasto arsenal de saberes marítimos, elas criam e recriam um modo de ser no mundo, através do habitus de vida (BOURDIEU, 1989) que tece a teia de significação do corpo-que-trabalha-na-maré. Aproximando-se da fenomenologia do corpo, da perspectiva de estar-no-mundo e ser lançado a um projeto por inteiro (MEARLEU-PONTY, 1999) este trabalho objetiva compreender os sentidos e as práticas mediadas pelo corpo no cotidiano da mariscagem. A partir da análise de dados produzidos em pesquisa etnográfica, orientada pela perspectiva fenomenológico-compreensiva, realizada em uma comunidade pesqueira de São Francisco do Conde/Bahia. Foram realizadas seis entrevistas em profundidade, além da observação participante realizada entre janeiro de 2011 e janeiro de 2012. Duas dimensões são exploradas: os rituais do corpo ou habitus mobilizados nos diferentes momentos que se sucedem no cotidiano da mariscagem; e a dor, seus significados e itinerários terapêuticos associada ao trabalho com mariscos. Observa-se, um conjunto de rituais e práticas que envolvem processos, que vão desde a preparação do corpo para fazer frente à jornada de trabalho, aos vários procedimentos envolvidos na coleta ou na mariscagem, propriamente dita, chegando ao momento da venda do marisco. Emergem narrativas de uma dor no corpo generalizada e significada como um cansaço, que não as impede de exercerem o ofício. Retomando à alusão à dinâmica estrutura-agência, evidenciamos a convergência com a visão de Bourdieu (2009, p. 58) de que as práticas são “imediatamente ajustadas às estruturas”, em um processo mais amplo que reforça continuamente a necessidade de “harmonização das experiências dos sujeitos. No universo das marisqueiras, as dores e outras mazelas associadas ao trabalho que desenvolvem tende a ser minimizadas a partir de uma lógica onde prevalece o senso prático da sobrevivência. As alternativas de cuidado permeiam em torno da ‘prática informal’ (automedicação, aconselhamento com outras pessoas, assistência em igreja e cultos), passando pela ‘alternativa popular’ (curandeiros), até chegar ao ‘setor profissional (fisioterapeuta, enfermeiro, médico)’ (KLEINMAN, 1978). A frequência e a intensidade das relações que os doentes mantêm com o médico crescem quando se sobe na hierarquia social, quando diminui a distância social entre o médico e seu paciente (BOLTANSKI, 2004). Ao assumir como objeto de estudo a pesca artesanal exercida pelas mulheres, procuramos nos aproximar, não apenas com as técnicas da avaliação biomecânica da Fisioterapia, mas extrapolar esse olhar sistemático para compreender o corpo em sua dimensão subjetiva e cultural. Neste sentido, revela-se especialmente oportuno a realização de estudos futuros que explorem, entre outros aspectos, a incidência de marcadores geracionais na produção de sentidos sobre o corpo, condições de trabalho e saúde em relação à prática da mariscagem, assim como, os limites e possibilidades do cuidado à saúde (institucional, pessoal) neste universo.
BOLTANSKI, L. As classes sociais e o corpo. São Paulo: Paz e Terra, 2004.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989.
________________O senso prático. São Paulo, Ed. Vozes, 2009.
LE BRETON, David. A Sociologia do corpo. Editora Vozes. Petrópolis- Rio de
janeiro, 2007.
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
KLEINMAN, A. Concepts and a model for the comparison of medical systems as cultural systems. Social Science and Medicine, v. 12, n. 2B, p. 85-93, 1978.