Sistema Online de Apoio a Congressos do CBCE, XIX Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e VI Congresso Internacional de Ciências do Esporte

Tamanho da fonte: 
ESTÁGIO EM RECREAÇÃO E LAZER: POTENCIALIDADES E DESAFIOS
Verônica Werle, Juliana de Paula Figueiredo, Alcyane Marinho

Última alteração: 2015-07-05

Resumo


INTRODUÇÃO
Como se caracteriza o profissional pretendemos formar? Quais as competências e as habilidades necessárias? Como desenvolvê-las no contexto particular de ensino que é o estágio? Qual o melhor momento para isso? Apesar de estas questões serem recorrentes e amplamente discutidas no âmbito da formação profissional das diversas áreas do conhecimento e também da área da Educação Física, entendemos ser necessária a reflexão contínua sobre o tema, tendo em vista as mudanças frequentes na dinâmica social e, portanto, também no que se refere à intervenção profissional, bem como o caráter embrionário dos cursos de Bacharelado em Educação Física.
Como foi apontado por Marinho e Santos (2012), embora haja uma literatura farta em relação aos Estágios Supervisionados em Educação Física, estes têm como foco principal a Licenciatura, havendo a necessidade de maior análise dos estágios do curso de Bacharelado, pelo menos, tendo em vista a atual fragmentação dos currículos e das áreas de intervenção, aspectos que chamam para a reflexão do que seriam suas especificidades e os conhecimentos necessários para atuação. Algumas iniciativas de sistematização escrita sobre o processo de ensino aprendizagem que se estabelece no estágio do Bacharelado foram realizadas por alguns autores, seja com foco na perspectiva dos alunos (FARIAS et al., 2008) seja àquela da instituição (FREIRE; VERENGUER, 2007; SILVA et al., 2003; MARINHO; SANTOS, 2012). A partir destas considerações, este texto tem como objetivo apresentar a perspectiva docente situada justamente na interlocução teórico-prática entre a instituição de ensino, o aluno e a instituição conveniada, apontando, a partir do processo de reflexão e articulação destas diversas vozes, algumas potencialidades e desafios para a Educação Física como curso formador de profissionais, em especial, no estágio de Recreação e Lazer.
O curso de Bacharelado em Educação Física, no qual se ancora este texto possui cinco estágios, compreendendo a Gestão Esportiva, a Atividade Física Adaptada, os Exercícios Físicos e a Saúde, os Esportes e a Recreação e Lazer, segmento privilegiado das análises aqui empreendidas, fruto da atuação docente das autoras deste trabalho. Trata-se de um estágio realizado na sexta fase do curso, em instituições públicas e privadas, abrangendo 72 horas de formação in loco, além do desenvolvimento do plano de trabalho, do relatório final e da autoavaliação - vinculada à avaliação do professor orientador e do supervisor externo.
Como parte desta breve contextualização é importante destacar que partimos de uma abordagem de recreação e lazer “crítica e superadora”, portanto, compreendemos este segmento de intervenção como “campos multidisciplinares e como fenômenos sociais complexos, em estreita relação com outras esferas da vida humana” (MARINHO; SANTOS, 2012, p. 255). É a partir desta perspectiva que apresentamos as reflexões sobre as potencialidades e dificuldades do estágio em recreação e lazer.

POTENCIALIDADES E DESAFIOS
O primeiro ponto que salta aos olhos na experiência docente com o referido estágio é sua potencialidade para desmistificação do campo. Sabemos do histórico de desvalorização e da condição marginal à que a recreação e o lazer foram por muito tempo tratados, seja como manifestação humana, tema de estudo ou área de atuação. Na contramão desta falsa perspectiva, o estágio tem se apresentado como lugar privilegiado para apresentação aos alunos, não apenas de mais uma possibilidade de campo de atuação, mas de um segmento novo e interessante, pelo menos em relação às suas expectativas prévias. Diferente do entendimento do senso comum e da associação simplificada com a infância e com um rol de brincadeiras, os alunos descobrem a potencialidade da recreação como perspectiva de trabalho para intervenção com as diferentes populações e faixas etárias, bem como para lidar com os diversos conteúdos culturais do lazer definidos por Dumazedier (1980).
À medida que tais potencialidades são experimentadas no exercício da prática, tornam-se mais interessantes, tendo em vista os diferentes perfis dos futuros profissionais, passando a se constituir como possibilidade concreta de atuação. Na esteira deste interesse proporcionado pelo estágio, surge o estímulo e a necessidade de diálogo com outras áreas do conhecimento, bem como de resgate das aprendizagens realizadas nas outras disciplinas do curso. Entre outros, são exemplos: a retomada de aspectos psicológicos para tratar das diferentes e extremas realidades sociais encontradas nos projetos sociais; a retomada de medidas pedagógicas não coercitivas para o trabalho com situações de indisciplina e dos conhecimentos específicos sobre a inclusão das pessoas com deficiência. Assim, a partir do estágio, a recreação e o lazer passam a se concretizar como fenômenos mais complexos do que o esperado, mas também mais desafiadores e valorizados pelos alunos.
Paradoxalmente, a interdisciplinaridade que mostramos como potencialidade também aparece como desafio a ser pensado amplamente nos cursos de Bacharelado e, particularmente, sobre os planos de ensino das disciplinas curriculares. Apesar de mostrarem-se necessários, os pontos de articulação entre os conhecimentos/disciplinas nem sempre se fazem presentes, algo que se reflete, em especial, no momento de atuação no estágio de recreação e lazer. Na nossa compreensão, isto tem acontecido em virtude da falta de reconhecimento e conhecimento das especificidades da área de atuação da recreação e do lazer, nem sempre em concordância com as demais áreas de atuação do Bacharelado.
Guardado o caráter preliminar das nossas reflexões, o que vemos é um conjunto de conhecimentos (psicológicos, pedagógicos e sociais) tendo como horizonte as práticas relacionadas ao esporte de rendimento, ao treinamento esportivo e aos exercícios físicos na área da saúde, em detrimento de outros conhecimentos de igual importância, associados às esferas do brincar e do lúdico como objetos e veículos de educação. Por consequência, as relações entre estas disciplinas e as situações encontradas no estágio de Recreação e Lazer são muitas vezes fragilizadas, tendo que ser realizadas no âmbito da disciplina de estágio (realizada em sala de aula), algo que nem sempre é possível com a profundidade e o tempo necessários.
Embora os limites deste texto não permitam maior aprofundamento, acreditamos que o cerne desta questão está na divisão do curso de Educação Física (Bacharelado e Licenciatura), mais especificamente no estágio ainda embrionário do processo de construção e adequação entre competências profissionais e conhecimentos necessários para atuação nas diversas áreas de intervenção. Ainda chamamos a atenção para outro desafio, pertinente a todos os estágios, mas que encontra especificidades no de Recreação e Lazer. Trata-se das relações estabelecidas entre instituições e estagiários, que muitas vezes são confundidas com trabalho ou com concorrência. No primeiro caso, o aluno estagiário passa a fazer parte do conjunto de funcionários, constituindo-se como “mão de obra barata”, sendo colocado menos como um aprendiz e mais como um “tarefeiro”, tomando parte em maior medida da execução das atividades e menos dos processos de planejamento, organização e avaliação. No segundo caso, observamos uma relação onde prevalece a negação da aprendizagem do aluno pela instituição, devido ao que ele possa vir a representar no futuro, no sentido de, supostamente, tornar-se um concorrente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da apresentação de potencialidades e desafios do estágio de recreação e lazer do curso de Bacharelado, procuramos propor alguns pontos para um debate ainda incipiente: a desmistificação do campo, o reconhecimento e a valorização de sua diversidade, a interdisciplinaridade, ou a falta dela, e o desentendimento sobre o papel da instituição. Reforçamos a necessidade do aprofundamento destas questões, a partir, especialmente, do estudo das suas causas e consequências e, portanto, do que representam na futura atuação do profissional em formação. Talvez, o curso de Bacharelado possa se apropriar de pontos mais bem desenvolvidos no debate sobre os estágios da Licenciatura, sem perder de vista suas especificidades.

Palavras-chave


formação profissional; educação física;lazer

Referências


DUMAZEDIER, J. Valores e conteúdos culturais do lazer. São Paulo: SESC, 1980.

FARIAS, G. O.; FOLLE, A.; BOTH, J.; SAAD, M. A.; TEIXEIRA, A. S.; SALLES, W. N.; NASCIMENTO, J. V. do. Preocupações pedagógicas de estudantes-estagiários na formação inicial em Educação Física. Motriz, Rio Claro, v. 14, n. 3, p. 310-319, jul./set. 2008.

FREIRE, E. S.; VERENGUER, R. C. G. Estágio supervisionado: a nova proposta para o curso de bacharelado em Educação Física da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 115-119, 2007.

MARINHO A.; SANTOS, P. M. Estágios curriculares nos cursos de bacharelado em Educação Física. In: NASCIMENTO J. V.; FARIAS, G. Construção da identidade profissional em Educação Física: da formação à intervenção. Florianópolis: Ed. da UDESC, 2012. p. 235-262.

SILVA, S. A. P. dos S. Desenvolvimento do pensamento crítico-criativo e os estágios curriculares na área de Educação Física. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Brasília, v. 11, n. 3, p. 37-44, jul./set. 2003.

Texto completo: PDF