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MEMÓRIAS DA EDUCAÇÃO FÍSICA E ESPORTES NOS ARQUIVOS DA ESCOLA NACIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA E DESPORTOS
José Tarcísio Grunennvaldt, jayne Nascimento Antunes, Eliete Barbosa da Silva

Última alteração: 2015-07-06

Resumo


No Brasil, a educação física pode ser considerada filha do século XX. Acreditamos nisso tendo em vista que foi nas décadas de 1920 – 1930 que esforços significativos foram realizados no sentido de sistematizar atividades e/ou práticas corporais bem como se iniciou a formação de professores de educação física em escolas especializadas, ligadas ou não, às universidades.
Diante das necessidades postas de preparação da população brasileira frente às circunstâncias de beligerância na ordem internacional e as novas exigências do mundo da produção, a educação física na escola em sua função de socialização foi convocada em primeiro plano como instituição capaz de instrumentalizar via formação humana uma tecnologia de Estado, com capacidade de preparação da população para o mundo do trabalho e, em segundo plano para a formação cidadã, visando sua inserção na vida pública (PÉREZ GÓMEZ, 1998).
Em meio a essa ambiência, foi criada na Universidade do Brasil em 1939, a Escola Nacional de Educação Física e Desportos (ENEFD). Tendo preocupação com a formação de professores de educação física, médicos especializados, técnicos desportivos, normalistas especializados em educação física e massagistas. Em seu decreto de criação, estava previsto um periódico para divulgações das produções da escola. Dada à importância dos periódicos, decidiu-se organizar elementos que pudessem nos trazer provas da significância desse dispositivo de conhecimentos na área de educação física e desportos para a época. Nesse sentido, muitos foram os questionamentos e reflexões que surgiram: Quem escrevia? Quais áreas do conhecimento eram contempladas pelos autores em seus artigos? Quem eram os intelectuais, pesquisadores, professores e outros que publicavam? O decreto de criação da escola no Capítulo VII, Art. 41 estabelecia que:
Será publicada, pela Escola Nacional de Educação Física e Desportos, uma revista, que deverá sair pelo menos duas vezes por ano, destinada à divulgação dos resultados de suas realizações no terreno do ensino e da pesquisa.
A ENEFD teria como principais funções: formar profissionais para a área de Educação Física; promover a unidade teórica e prática no ensino na área de educação física no país; difundir conhecimentos ligados à área e, realizar pesquisas que apontassem os caminhos mais adequados para a educação física brasileira, dentre estas, muitas foram publicadas nos Arquivos, periódico criado em decorrência do artigo supra citado.
Voltamos à atenção sobre os Arquivos da ENEFD, considerando que esse dispositivo, filho da maioridade intelectual da Escola era reconhecidamente um dos periódicos de maior legitimidade acadêmica da área educação física/esporte do País.
Tendo em vista que a Escola Nacional de Educação Física e Desportos configurou-se como referencial e modelo para outras escolas, nossos esforços deram ênfase a sua produção publicada de (1945-1972). Tais Arquivos veiculados, foram publicações importantes no cenário nacional, legitimidade conquistada mediante divulgação de informações obtidas a partir de estudos e pesquisas. Os Arquivos não eram exatamente periódicos informativos com registros de eventos, notícias, ou acontecimentos ligados ao esporte de um modo geral, e nem simples relatórios das pesquisas, mas um dispositivo que permitia registrar de um modo geral todos os acontecimentos e experiências desenvolvidas pela ENEFD, como Práticas Desenvolvidas, Discursos de Paraninfo, Conferências de Abertura, Aulas Inaugurais etc.
Nesse sentido, a ênfase dada na pesquisa vem reforçar a importância que essa Escola representou como padrão referencial na formação de professores de educação física e esportes em uma época, bem como a marca inaugural que os Arquivos representou no periodismo do campo da educação física e desportos.
A pesquisa propôs os seguintes objetivos: apresentar a produção da revista arquivos da ENEFD de 1945 a 1972; analisar quais concepções de pesquisa e de ensino foram produzidas/divulgadas pela ENEFD por meio da Revista Arquivos da ENEFD.
Realizou-se o levantamento, a descrição das produções dos Arquivos e seus conteúdos, e para tal foi realizada a técnica de análise de conteúdo. (BARDIN, 1977). Na etapa da exploração do material, etapa longa que constituiu essencialmente de operações e enumeração, preparação dos materiais, elaboração de fichas e planilhas, leituras e categorização dos conteúdos dos periódicos em função do pretendido estudo. Na etapa da leitura flutuante, nas trilhas de Bardin (1986), foi possível desenhar a partir das várias leituras e discussões uma classificação das produções: trabalhos originais, cursos e conferências, atividades didáticas, divulgações, palestras, relatórios, noticiários, discursos, aulas inaugurais, orações de paraninfos, homenagens, congressos etc.
Por vezes, ficamos preocupados como que querendo encontrar na literatura algo ou alguma sugestão de classificação já realizada. Diversas foram as procuras, no entanto, não se encontrou o que idealizávamos encontrar. Fortuitamente, a não existência de modelo a ser seguido instigou-nos à criação de tipologia própria.
Tal fase envolta de muita riqueza, com possibilidades de problematizações e levantamento de algumas hipóteses, no entanto, ainda que provisórias, nos instigaram a vislumbrar horizontes e possíveis desmembramentos da pesquisa para novos objetos de estudo. Portanto, a fase do tratamento dos resultados conseguidos nas revistas levou um tempo maior de dedicação, devido à quantidade de trabalhos originais encontrados com detalhes e minudência dos dados.
A pesquisa coletou e descreveu o material produzido pelo periódico (1945-1972), elaborou a composição de banco de dados e não se atendo a nenhuma classificação externa ao material procedemos a seguinte tipologia com as respectivas incidências:1.Trabalhos originais – 86; 2. Cursos e conferências – 20; 3. Atividades didáticas – 29; 4. Divulgações – 88; 5. Palestras – 05; 6. Relatórios – 03; 7. Noticiários – 29; 8. Discursos – 22; 9. Aulas inaugurais – 02; 10. Homenagens - 01.
Considerando a grande quantidade de produtos encontrados nos periódicos e, para isso, com sentido de viabilizar uma leitura razoável do material, decidiu-se focar esforços sobre os Trabalhos Originais.
Desde quando se realizou a etapa da leitura flutuante (Bardin, 1986) esboçou-se a tipologia para expressar o teor das produções:
1. Os textos enfatizam as bases anátomo-fisiológicas dos exercícios e esportes;
2. Os textos enfatizam a educação física, atividade física, esportes e sociedade;
3. Os textos enfatizam o treinamento em esportes e ginásticos;
Com o aprofundamento das leituras, o teor dos artigos não contradiz de todo a nossa tipologia esboçada.
Ao mesmo tempo em que se pensou em uma tipologia, pensou-se também na possibilidade de se levantar algumas hipóteses, que assim se constituíram:
H1. A produção científica na ENEFD enfatiza o corpo biológico nos seus artigos divulgados;
H2. A produção científica privilegiou uma leitura de esporte convencional em seus artigos;
H3. A produção de conhecimento em seus artigos enfatizou o corpo biológico-funcional com ênfase no desporto convencional. Porém, parte dos artigos sinalizou uma produção destacando a educação física e sua relação com a história, a antropologia, a filosofia e a psicologia em um contexto educacional maior na qual ganhavam ênfase as danças, as lutas e esportes em suas possibilidades educativas.
Em consonância com nossas hipóteses encontramos textos versando sobre: aspectos morfológicos e fisiológicos do organismo humano; atividades físicas e o esporte e sua relação com a medicina; artigos que enfocam a dança, ginastica o esporte e as lutas como meios de educação física; estudos críticos sobre a atividade física, esportes; o exercício físico, o esporte e a reeducação; treinamento desportivo; psicologia do esporte; história da educação física e do esporte e, análises biomecânica do movimento e do esporte.
Dos textos, destacamos dois. O primeiro, Da nomenclatura de movimentos que dependem de articulações esféricas, do Dr. Cid Braune Filho(1945), apresenta o estado da arte e aponta limitações nas pesquisas correntes, trazendo autores com os quais dialoga para construir seus argumentos. Nesse sentido, por certo sua postura em rever os conceitos utilizados apontava para uma posição de insatisfação para com o status quo da ciência, portanto um olhar crítico.
Em A importância da investigação psicológica no controle das atividades desportivas Carlos Sanches de Queiroz(1954-1955) aponta para os limites do positivismo e sua visão fenomenista quando aborda um tema que é fundamental para o estabelecimento das bases e diretrizes do controle científico das atividades desportivas, destacando que entre a bibliografia nacional e estrangeira, sobre o assunto do controle científico das atividades desportivas tem se cingido, com raras exceções, ao exame das possibilidades e das limitações anátomo-fisiológicas do atleta.
Em termos psicológicos, quando quer superar a limitação do positivismo ingênuo sugeria que a “ciência não é fenomenista, é ontológica” (p. 109). Assim, assevera que o controle científico das atividades desportivas não se limite ao levantamento das condições somáticas do atleta.
Conclui-se que Arquivos, foi um periódico que veiculou diferentes visões de mundo ou epistemologias, o que está evidenciado em sua produção, o que se procurou demonstrar nos dois artigos destacados.

Palavras-chave


Escola Nacional de Educação Física e Desportos; Arquivos; Memória

Referências


BARDIN, L. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.
BRASIL. Decreto Lei n° 1.212 17 de abril de 1939, cria na Universidade do Brasil, a Escola Nacional de Educação Física e Desportos,1939.
BRAUNE FILHO, C. Da nomenclatura de movimento que dependem das articulações esféricas. Arquivos. Rio de Janeiro: ENEFD, Ano I outubro 1954, n°1.

GÓMEZ, P. A. As funções sociais da escola: da reprodução à reconstrução crítica do conhecimento e da experiência. In. GÓMEZ, P. A.; SACRISTAN, J. G. Compreender e transformar o ensino. 4. ed. Artmed, 1998.
QUEIROZ, C. S. A importância da investigação psicológica no controle das atividades desportivas Arquivos. Rio de Janeiro: ENEFD, Ano XVIII – Junho, 1954-1955, n° 8.

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