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O VOLEIBOL COMO UMA PROPOSTA PEDAGÓGICA PARA A TEMATIZAÇÃO DO GÊNERO E SEXUALIDADE NA ESCOLA
Dayvid Celso Silva Oliveira

Última alteração: 2015-06-25

Resumo


INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como objetivo descrever, analisar e sistematizar possibilidades pedagógicas em gênero, a partir do voleibol, nas aulas de educação física.. Intervenção esta realizada no IFSULDEMINAS-Campus Muzambinho, no terceiro bimestre de 2014, na qual foram realizadas aulas de voleibol, transversalizadas pelas temáticas de gênero e sexualidade.
O gênero é um marcador social, que identifica processos de diferenciação entre homens e mulheres, como constructos sociais e culturais, entendendo que estes permeiam as instituições, políticas, normas a partir de representações de masculinidades e feminilidades (GOELLNER,2007, p.179). O Gênero é um conjunto de saberes e normas sociais que constituem comportamentos, ações, formas de falar, vestir, brincar, amar, dentre outras inúmeras práticas (FERNANDES,2010, p 101-120). Deste modo, ainda, o gênero é algo “que integra a identidade do sujeito, que faz parte da pessoa e a constitui”, processo este que é cultural, de modo que
(...) os gestos, as musculaturas, as roupas, os acessórios, os suplementos alimentares carregam consigo significados que, na nossa sociedade e no nosso tempo, estão também associados ao feminino e ao masculino. Estas marcas produzem efeitos e, não raras vezes, são reclamadas para justificar a inserção, adesão e permanência de homens e mulheres em diferentes práticas corporais e esportivas (GOELLNER, 2007, p.184).
O gênero, portanto, permeia os discursos sobre a adesão e permanência em práticas corporais, levando à inclusão do esporte como “um espaço de generificação, não porque reflete as desigualdades e diferenciações da sociedade em geral, mas fundamentalmente, por que as produz e reproduz” (GOELLNER, 2007, p.190).
Nesse sentido, consideramos o voleibol como uma pratica genereficada, já que para muitos o esporte é praticado por mulheres e homossexuais, o que pode ter como consequência a privação da prática desta modalidade aos alunos do gênero masculino (FERNANDES, 2010). O voleibol, perpassado por marcadores de gênero, então, é um terreno rico para proporcionar discussões e aprendizados sobre o corpo, sobre as representações sociais sobre gênero e sexualidade, e os espaços de prática esportiva.
Por isso, para a desconstrução desse cenário, é necessária a tematização pedagógica do voleibol para todos os gêneros, proporcionando a democratização do acesso à pratica e problematizando ainda essas as representações de gênero e sexualidade relacionados à modalidade.
A fim de desconstruirmos os mecanismos de generificação do voleibol, pautamos a intervenção a partir de aulas mistas, visando priorizar as atividades para ambos os sexos, tendo como objetivo trabalhar as mesmas possibilidades e oportunidades. Diante disso, contemplamos no planejamento atividades com alunos de turmas diferentes, interação e contato corporal de homens com homens, mulheres com mulheres, homens e mulheres e reflexões sobre o gênero e sexualidade ao final de cada aula.

METODOLOGIA
A amostra foi composta por duas turmas de primeiro ano do ensino médio integrado ao curso técnico em Agropecuária do IFSULDEMINAS- Campus Muzambinho na cidade de Muzambinho-MG, de composição majoritária masculina. A escolha da amostra se deu por participarmos do PIBID ( Programa Institucional de Bolsas de Iniciação á Docência). Foram aplicadas 4 aulas, das quais a primeira foi uma aula diagnóstica, duas aulas de intervenção e uma aula de finalização.

SOBRE A PROPOSTA DE INTERVENÇÃO
Todas as aulas eram iniciadas com um alongamento em duplas, em que os exercícios propostos exigiam o toque e a aproximação corporal entre os participantes. Com isso buscávamos desconstruir o tabu relacionado ao corpo. Na aula diagnóstica, realizamos um jogo de voleibol, em que eles mesmos se dividiram em equipes, a fim de ver como eles conheciam a modalidade e como a divisão entre as equipes permearia relações desiguais entre gêneros.
Na segunda aula, realizamos algumas atividades pedagógicas para o ensino do voleibol, como toques e o corta três. A fim de proporcionar uma possibilidade de protagonismo maios no jogo às meninas, incluímos posteriormente uma regra que meninas poderiam ser queimadas somente por meninas e poderiam queimar os meninos, o mesmo se aplicaria para meninos porem não poderiam queimar meninas. Com ela, pretendíamos problematizar as diferenças de conhecimento e de protagonismo entre os diferentes gêneros.
Na terceira aula, realizamos um jogo de voleibol que buscava reproduzir a desigualdade da relação social entre os sexos, dificultando o espaço de jogo para as mulheres. A cada ponto obtido por cada uma das equipes, um integrante deveria escolher uma imagem sobre o voleibol. Dentre as imagens, existiam imagens de atletas em jogo, focando seus corpos, suas jogadas ou a beleza. Ao final, discutíamos a semelhança entre o jogo de voleibol e a sociedade, a fim de materializar discussões sobre a desigualdade salarial, a dupla jornada de trabalho, dentre outros elementos e perguntávamos sobre o motivo da escolha das imagens, visando problematizar a representação das mulheres como corpos bonitos e não atletas, ou sobre a homossexualidade.
Na quarta aula, propusemos que eles criassem uma atividade relacionada ao voleibol que buscasse incluir todos os alunos, tentando criar pontes entre os jogos e as discussões sobre gênero.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Alguma resistência dos alunos já se demonstrou no momento do alongamento. A rejeição se deu porque eles nunca tinham realizado aquele tipo de alongamento e não queriam se tocar, o que se agravava em duplas formadas por meninos, em especial numa das turmas, que possuía apenas quatro meninas. Com a insistência dos alunos bolsistas para realizarem os movimentos do alongamento, tentando deixa-los mais descontraídos. Apenas nessa primeira aula houve uma rejeição pelo alongamento em duplas, sendo que nas outras o alongamento aconteceu de forma mais fácil.
Podemos também destacar a participação das meninas em relação às aulas. No início, apenas uma pequena porcentagem de meninas participavam da atividade. Quando participavam, ainda, o faziam ocupando papéis de figurantes no jogo (JACÓ, 2012). Com a atribuição de regras que as beneficiaram, pudemos observar uma maior participação das mesmas nas atividades, assumindo papéis mais protagonistas. O Corta-três alterado era sempre vencido, por uma menina. Por outro lado, essa regra causava um descontentamento nos meninos. Esse ponto foi interessante, por possibilitar lançarmos questões, nas quais problematizávamos a questão da inclusão de todos nas aulas tanto meninas, quando meninos, sejam mais habilidosos ou menos habilidosos. Ainda possibilitou problematizar a ideia de uma suposta fragilidade da mulher, demonstrando que as mulheres que nem sempre são mais frágeis que os homens.
Ao final da terceira aula, discutimos com alunos questões relacionadas ao papel da mulher na sociedade e relacionamos algumas imagens de atletas de voleibol tanto homens quanto mulheres. Ao perguntarmos a motivação da escolha das figuras, os meninos normalmente pegavam as fotos nas quais apareciam mulheres mostrando parte de seus corpos, ou em posições sensuais. Aproveitamos para dar visibilidade ao valor da mulher no esporte e como a mídia influencia nossa visão, desviando a atenção desse aspecto. As meninas pegaram imagens, nas quais as equipes apareciam recebendo troféus, premiações, valorizando o resultado esportivo.
A partir dessas aulas dialogadas, com atividades adaptadas e regras que desestabilizavam aqueles que já possuíam mais habilidade, identificamos que os alunos participaram mais das aulas, possibilitando um interesse pelos debates e pelas possibilidades de participação. A proposta da última aula era avaliar a apreensão desses princípios pelos alunos. Uma das salas criou uma atividade que foi um jogo de handebol com regras que oportunizavam uma maior participação das meninas, a fim de tirá-las da condição de apenas figurantes nas aulas. A outra sala criou um jogo de queimada mista, que utilizava no lugar do arremesso, o corte do voleibol para queimar, colocando uma regra nas quais as meninas poderiam ser queimadas duas vezes antes de saírem da partida.

CONCLUSÃO
Dado a brevidade da intervenção, foi possível verificar os alunos incorporaram algumas das discussões das problematizações e das questões de gênero que permeiam o esporte, não somente no voleibol. Em especial a perspectiva de oportunizar algumas condições para a maior participação das mulheres, de forma auto-organizada pelos alunos.

Palavras-chave


Voleibol; Ensino Médio; Gênero;

Referências


FERNANDES, Simone Cecília. “Cadê a bola Dona?” Ou sobre os significados de gênero nas aulas de educação física. In: DAOLIO, Jocimar (Org.). Educação Física Escolar: Olhares a partir da cultura. 1ª Ed. Campinas: Ed. Autores, 2010 .
GOELLNER, Silvana. Feminismos, mulheres e esportes: questões epistemológicas sobre o fazer historiográfico. Revista Movimento, v.13.2007.p.173-196.
JACÓ, Juliana.

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