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FORMAÇÃO DE ESTUDANTES DE EDUCAÇÃO FÍSICA PARA A INCLUSÃO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
EDILSON FRANCISCO NASCIMENTO

Última alteração: 2015-07-15

Resumo


PALAVRAS-CHAVE: inclusão; educação física adaptada; pessoas com deficiência.

INTRODUÇÃO
Dentro das escolas inclusivas o discurso dos professores de Educação Física que apresentam dificuldades para ministrar aulas a alunos com deficiência costuma se referir a não capacitação e preparo como justificativa. Exemplo desse fato está em pesquisa realizada com 180 professores do ensino fundamental da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal - SEEDF, quando apenas 20% destes afirmaram se sentir capacitados para a inclusão (BOATO, VIEIRA e SILVA, 2011), fator também discutido por Falkenback (2007).
Mesmo que esse discurso recorrente possa ser adotado por alguns professores em função de barreiras atitudinais, é preciso reconhecer a urgência de repensar a formação inicial dos mesmos, contextualizando-a e significando-a de forma a oferecer aos estudantes dos cursos de Educação Física a possibilidade de novas perspectivas educacionais.
Segundo Mantoan (2003) a proposta de inclusão exige que a escola se identifique com determinados princípios educacionais e que os professores tenham atitudes compatíveis com estes princípios. Um grande entrave para o sucesso da proposta certamente é a falta de subsídios na formação acadêmica dos professores, pois muitas vezes ela não alcança o devido preparo dos mesmos para lidar com alunos com deficiências. Para Aguiar e Duarte (2005, p. 225), em muitos casos, tal formação “têm por prioridade o desempenho físico, técnico e o corpo enquanto objeto de consumo em detrimento das disciplinas pedagógicas”, sendo assim voltada para aspectos relacionados com a atuação em academias e clubes esportivos, deixando a desejar nos aspectos pedagógicos da educação física escolar.
Nesse sentido, é importante uma formação de professores que discuta as perspectivas dos alunos com deficiência nas aulas de Educação Física e onde se vivencie práticas nas quais os mesmos estejam presentes, de forma tal que o estudante tenha um contato direto com quem, posteriormente, vai atuar.
A partir do projeto “Espaço Com-Vivências” os alunos selecionados para a Iniciação Científica são levados a participar das atividades oferecidas pelo mesmo, que envolvem alunos com deficiência da rede de ensino público e da comunidade. Tal proposta permite a imersão dos bolsistas nos elementos teóricos e práticos que envolvem o atendimento, oportunizando uma formação mais aprofundada e asseguradora para os futuros profissionais. Assim, o relato dos bolsistas da Iniciação Científica permite uma análise sobre essa proposta de formação que está pautada na aproximação da Universidade com a comunidade local, como uma fonte de desenvolvimento mútuo. Por isso, o objetivo desse trabalho foi analisar as percepções dos estudantes do curso de Educação Física da Universidade Católica de Brasília, bolsistas da Iniciação Científica, a partir da participação dos mesmos nas atividades do Projeto “Espaço Com-Vivências”.

METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada com os quatro alunos bolsistas do programa de Iniciação Científica do Projeto de Extensão e Pesquisa em Atendimento Educacional Especializado em Educação Física e Arte, denominado “Espaço Com-Vivências”, realizado numa parceria entre a Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal e a Universidade Católica de Brasília – UCB. O projeto, que atende a cerca de 200 alunos com deficiência intelectual, física, múltipla e Autismo, conta com duas Oficinas: Corpo Expressão e a de Atividades Aquáticas.
O referido projeto abre suas portas para a participação dos estudantes do curso de Educação Física da UCB em estágios, pesquisas e iniciação científica. Os bolsistas de iniciação científica tem a oportunidade de acompanhar as atividades das oficinas em dois dias da semana e de realizar seus estudos e pesquisas em outros três dias.
Para a realização da pesquisa foi feita uma entrevista semiestruturada com os bolsistas do projeto de iniciação científica que atuaram no projeto durante o ano de 2014, buscando suas percepções a respeito dos alunos com deficiência e questionando as motivações que os levaram a buscar o Projeto para atuar, suas concepções de deficiência antes e após sua participação e as percepções sobre as possibilidades da Educação Física no atendimento educacional especializado e no processo de inclusão de pessoas com deficiência.
ANÁLISE E DISCUSSÃO
A partir das respostas dos bolsistas, pode-se perceber uma mudança clara de concepção a respeito das possibilidades das pessoas com deficiência diante das propostas da Educação Física, desde que sejam adequadas às condições de cada aluno.
Quando questionados sobre as mudanças em suas visões sobre as capacidades dos alunos com deficiência, os bolsistas enfatizaram que passaram a perceber que eles tinham condições motoras de realizar as atividades propostas ao contrário do que pensavam antes de entrarem no projeto. Respondendo a essa questão, um dos bolsistas disse que viu os alunos fazerem uma série de movimentos que ele acreditava ser “impossível para esse público devido à descoordenação motora que a maioria deles teria”. Essa percepção já pode ser considerada um grande passo para a formação desse estudante, visto que, ao perceber as capacidades das pessoas com deficiência dentro das aulas de educação física, certamente terá maior facilidade de promover a inclusão quando estiver atuando profissionalmente.
Também foi questionada a mudança de percepção dos bolsistas sobre a atuação junto à pessoa com deficiência e o principal ponto levantado foi a quebra de preconceitos e de paradigmas, pois eles afirmaram na entrevista que tinham uma visão voltada para a limitação das pessoas com deficiência, tanto no aspecto motor quanto nos aspetos comportamentais e relacionais. Após sua passagem pelo projeto a visão voltou-se para as possibilidades dessas pessoas, principalmente, nas atividades da Educação Física.
Além disso, eles enfatizaram a importância do contato do estudante do Curso de Educação Física com pessoas com deficiência em atividades práticas durante sua formação. Tal contato pode potencializar uma atuação mais efetiva quando estiverem inseridos no mercado de trabalho, visto que, tendo visualizado o potencial dos alunos com deficiência, poderão buscar alternativas de atendimento que permitam a inclusão desses alunos em programas de educação física dentro e fora do ambiente escolar.
Quando questionados sobre quais as mudanças na práxis pedagógica depois da participação nas atividades do projeto, as respostas foram direcionadas ao respeito à individualidade e às condições de cada aluno, para que eles possam acessar as atividades de acordo com suas capacidades. Essa percepção pode contribuir para modificar uma realidade constatada por Rodrigues (2010, p. 12) “que nega a diferença e suprime a desigualdade, fechando o espectro de possibilidade individual, na medida em que, em nome da inclusão aceita o sujeito presencial, mas não concreto, na realidade escolar”.
Por fim, os bolsistas foram questionados sobre os pontos positivos de sua atuação junto a alunos com deficiência e as respostas seguiram na direção da mudança de percepção sobre as possibilidades desses alunos, apontando para o respeito às capacidades individuais. Cabem aqui, as palavras de Chicon (2010, p. 88) para quem a inclusão das pessoas com deficiência não significa apenas adaptar as atividades para sua participação, “mas é adotar uma perspectiva educacional cujos objetivos, conteúdos e métodos valorizem a diversidade humana e que esteja comprometida com a construção de uma sociedade inclusiva”.
Conclui-se assim, que um caminho viável para a mudança de concepções e paradigmas dos professores de Educação Física quanto à Educação e Inclusão Educacional de Alunos com Deficiência, pode estar na mudança de foco em sua formação básica, proporcionando aos estudantes, além de informações essenciais para o atendimento de pessoas com deficiência nas atividades de Educação Física, um contato sistematizado direto com tais pessoas, onde possam vivenciar com elas, suas possibilidades e potencialidades.

Palavras-chave


inclusão; educação física adaptada; pessoas com deficiência.

Referências


REFERÊNCIAS
AGUIAR, J. S.; DUARTE, E. Educação Inclusiva: Um estudo na área de educação Física. Revista Brasileira de Educação Especial, Brasília, 11(2), p. 223-240, 2005.
BOATO, E. M.; VIEIRA, T. M. S.; SILVA, J. W. Capacitação de professores para inclusão de pessoas deficientes nas aulas de educação física. Motricidade, vol. 8, n. Supl. 2, p. 891-900, 2012.
CHICON, J. F. Compreendendo a in/exclusão no contexto da educação física escolar. In. CHICON, J. F.; RODRIGUES, G. M. Educação Física e os desafios da Inclusão. Vitória: EDUFES, 2010.
FALKENBACK, A. P. A questão da integração e da inclusão nas aulas de Educação Física. EFDeportes, 11(106), 2007.
MANTOAN, M. T. E. Inclusão escolar: o que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.
RODRIGUES, G. M. O ser e o fazer na educação física: reflexões acerca do processo de inclusão escolar. In. CHICON, J. F.; RODRIGUES, G. M. Educação Física e os desafios da Inclusão. Vitória: EDUFES, 2010.

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