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EDUCAÇÃO FÍSICA NOS ANOS INICIAIS EM BRASÍLIA: DE ANÍSIO TEIXEIRA AO CURRÍCULO EM MOVIMENTO
JULIANA DE OLIVEIRA FREIRE, Geusiane Miranda de Oliveira Tocantins, Ingrid Dittrich Wiggers

Última alteração: 2015-07-06

Resumo


O estudo de cunho historiográfico aborda a educação física nos anos iniciais da rede pública de ensino de Brasília. Justifica-se o mesmo considerando a importância histórica do sistema escolar de Brasília, implantado como modelo a ser utilizado como referência para o território nacional, em 1960 (PEREIRA, 2011). Nesse, se destacou, entre outras inovações, a inserção da educação física na escolarização de crianças e jovens. O trabalho se desenvolveu sob a luz de elementos da história cultural, buscando identificar descontinuidades e permanências (BLOCH, 2001). Tem como objetivo examinar aspectos da história da educação física nos anos iniciais da rede pública de ensino de Brasília, enfocando a filosofia educacional, a concepção de infância e a educação física no currículo.
Foram delimitados dois períodos significativos, considerando acontecimentos e proposições relacionadas à educação física nos anos iniciais em Brasília. O primeiro se refere ao período original do sistema público de ensino da capital, que abrange a primeira metade da década de 1950 e a segunda metade da de 1960. O segundo é aquele em que foi implantado o projeto Escola Candanga, em meados da década de 1990. Foram privilegiadas fontes documentais e informações concedidas por órgãos e servidores da Secretaria da Educação do Distrito Federal (SEDF).
Em 1957, por sua experiência e renome no cenário educacional brasileiro, Anísio Teixeira, então presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), foi responsável pela idealização do Plano de Construções Escolares de Brasília (TEIXEIRA, 1961). O eminente educador tinha a visão de que a escola seria um espaço no qual as crianças poderiam estudar e conviver no mesmo ambiente. Com base no pragmatismo educacional, nesse modelo a criança deveria ser tratada como centro do ensino. As atividades orientadas a partir do interesse e atividade infantil no ambiente escolar poderiam conduzir a experiência particular de cada um ao conhecimento mais abrangente sobre o mundo natural e cultural (DEWEY, 1996). O projeto previu a estruturação do sistema por meio de Centros de Educação Elementar, formados pela integração entre Escolas-parque e Escolas-classe, que funcionariam em turno integral. Enquanto as Escolas-classe seriam responsáveis pelo ensino de disciplinas tradicionais, às Escolas-parque caberia o desenvolvimento de atividades artísticas, físicas e recreativas, bem como a iniciação para o trabalho dos estudantes. Segundo o currículo da educação elementar da época, que engloba o que denominamos hoje de anos iniciais, a educação física seria constituída de “recreação, ginástica de solo, atletismo, ginástica moderna, grandes jogos e pequenos jogos e natação” (SECRETARIA DE EDUCAÇÃO E CULTURA, 1974, p. 10). Desse modo, a educação física, além de uma atividade valorizada no currículo, fazia parte de um repertório mais amplo (WIGGERS, 2011).
A educação física nos anos iniciais do Ensino Fundamental integrou o projeto original de Brasília. Contudo, a construção das vinte e oito Escolas-parque, instituições preparadas arquitetonicamente para as atividades específicas da educação física, não se completou. Isso provocou a descontinuidade da oferta de educação física nos anos iniciais. Apesar de não ter sido concretizado na íntegra, sobretudo por questões e decisões de ordem política e econômica, esse projeto original exerce influência na educação do Distrito Federal até os dias de hoje (CORDEIRO, 2001; PEREIRA, 2011). Atualmente, há seis Escolas-parque em funcionamento, sendo cinco localizadas em Brasília e uma recentemente inaugurada em Ceilândia, em agosto de 2014, que representa a primeira Escola-parque fora da região administrativa central.
Cerca de quarenta anos depois, em 1995, foi implantado no Distrito Federal a chamada Escola Candanga, pelo Governo de Cristóvão Buarque. De acordo com Moraes (2009, p 173), trata-se de um “projeto político-pedagógico de cunho popular, que procurava não limitar seu foco a indicadores e metas quantitativas”. A autora afirma ter sido uma experiência importante, por contar com a participação efetiva da comunidade nas tomadas de decisões, representando, junto a experiências em outras Unidades da Federação, uma mudança de paradigma na elaboração de políticas públicas em educação. A concepção materialista-dialética norteou esse projeto, compreendendo a educação e a criança a partir de condicionantes sócio-históricos (VYGOTSKI, 1994). Ao mesmo tempo, a educação é considerada como transformadora das relações sociais.
Como parte dessa experiência, entre 1997 e 1998, foram implantados 50 Núcleos do Projeto Educação com Movimento, de acordo com fontes orais da SEDF. A proposta pedagógica do Projeto Educação com Movimento pressupõe um trabalho integrado entre o professor de educação física e o professor regente nos anos iniciais, contemplando aspectos didáticos gerais e específicos, do planejamento à avaliação. A educação física seria norteada por questões cotidianas e ao mesmo tempo visaria à apropriação crítica da cultura corporal de maneira interdisciplinar.
Cabe salientar, que após a mudança de governo do Distrito Federal, em 1999, o Projeto Escola Candanga e consequentemente o Projeto Educação com Movimento foram interrompidos. Apesar disso, segundo fontes orais, a Escola-classe 18, de Taguatinga, deu continuidade ao Projeto Educação com Movimento, como uma iniciativa da escola. Muitas dificuldades tiveram que ser enfrentadas, principalmente pela falta de suporte oficial, sendo necessário um convencimento ano a ano para que houvesse o professor de educação física disponível para atuar nos anos iniciais do Ensino Fundamental.
Em 2011, uma parceira entre a Coordenação de Educação Física e a Coordenação de Ensino Fundamental da SEDF promoveu o reinício do Projeto Educação com Movimento na rede de ensino, embora em apenas uma escola. Em 2012, o atendimento foi ampliado para duas escolas. Em 2013, já eram treze escolas atendidas, passando para vinte e cinco escolas em 2014 e totalizando vinte oito escolas até o primeiro bimestre de 2015, de um total de 664 escolas, das quais 296 são Escolas-classe, que atendem aos anos iniciais do Ensino Fundamental (DISTRITO FEDERAL, 2015).
Essa experiência progressiva, aliada aos debates e discussões em reuniões pedagógicas mensais entre gestores e professores, repercutiu no Currículo em Movimento (DISTRITO FEDERAL, 2013) e culminou com a oferta de vagas, em 2015, para professores de educação física com interesse em atuar nos anos iniciais, por meio do Projeto Educação com Movimento. “[...] Em busca da melhoria da qualidade da educação, a SEDF pretende, a partir de projetos pilotos, incluir a docência de Educação Física na equipe pedagógica dos anos iniciais” (DISTRITO FEDERAL, 2012, p. 59).
A educação física nos anos iniciais, portanto, além de ser ofertada tradicionalmente nas Escolas-parque, ampliou seu alcance na rede pública de ensino do Distrito Federal, por meio do Projeto Educação com Movimento. Percebe-se, portanto, relativo avanço no nível das políticas públicas educacionais, por meio dessa ampliação, que demanda a atuação de professores com formação específica na área de educação física nos anos iniciais do Ensino Fundamental. A oferta de educação física nos anos iniciais nas escolas públicas de Brasília não é uma proposta nova, como vimos anteriormente. Conclui-se que o Projeto Educação com Movimento representa recuperação de aspectos do projeto educacional original de Brasília, contudo sob uma filosofia educacional distinta.

Palavras-chave


educação física; anos iniciais; Brasília.

Referências


BLOCH, M. Apologia da história, ou, o ofício do historiador. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.
CORDEIRO, C. M. F. Anísio Teixeira, uma “visão” do futuro. Estudos Avançados, São Paulo, v. 15, n. 42, p. 241-258, mai./ago. 2001.
DEWEY, J. School and society. In: The collected works of John Dewey, 1882-1953: the eletronic edition. Carbondale, The Center for Dewey Studies at Southern Illinois University. p. 192-221. 1996.
DISTRITO FEDERAL. Secretaria de Estado de Educação. Currículo em Movimento da Educação Básica: Anos Iniciais do Ensino Fundamental. SEDF. Brasília, 2013.
______. Secretaria de Estado de Educação. Censo Escolar. Disponível em: . Acesso em: 01 de abril de 2015.
______. Projeto Político Pedagógico Professor Carlos Mota. SEDF. Brasília, 2012.
MORAES, S. C. Propostas alternativas de construção de políticas públicas em educação: novas esperanças de solução para velhos problemas? Educar em Revista, Curitiba, n. 35, p. 165-179, 2009.
PEREIRA, E. W. (Org.). Nas asas de Brasília: memórias de uma utopia educativa (1956-1964). Brasília, Universidade de Brasília, 2011.
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TEIXEIRA, A. A escola brasileira e a estabilidade social. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Brasília, v.28, n.67, p.3-29, jul./set. 1957
______. Plano de construções escolares de Brasília. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. Rio de Janeiro, v.35, n.81, jan./mar, p.195-199. 1961
VYGOTSKY, L. A formação social da mente. 5ª ed. São Paulo, Martins Fontes, 1994.
WIGGERS, I. D. Educação física escolar em Brasília, na década de 1960.
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